sexta-feira, 18 de abril de 2014

20 perguntas e respetivas respostas no que toca às linhas de alta tensão...


Mais uma vez bem vindos a este espaço, tal como me havia comprometido na publicação anterior, a presente publicação ostenta 20 perguntas e respetivas respostas no que toca às linhas de alta tensão, debatendo também a sua repercussão ao nível da saúde publica.



1- Que relação têm os campos eletromagnéticos das linhas de Alta Tensão com a radioactividade?

Nenhuma. A energia radiada nos campos eletromagnéticos é proporcional à sua frequência (a rapidez com que oscilam). A partir de um dado valor, que só ocorre para radiações eletromagnéticas com frequências próximas da da luz visível, essa energia é capaz de arrancar eletrões aos átomos da matéria, dizendo-se então que é ionizante. As radiações ionizantes podem, em princípio, alterar as moléculas do ADN e, por conseguinte, causar mutações cancerígenas. A luz do Sol, por exemplo, é cancerígena para a pele. As radiações cósmicas, as dos elementos radioativos, os raios X, são todos ionizantes e reconhecidamente cancerígenos quando a exposição humana a esses agentes é intensa e prolongada.
Os campos eletromagnéticos gerados pelos condutores de energia elétrica, pelo contrário, têm Extremamente Baixas Frequências (EBF) e por isso não são ionizantes, sendo incapazes de alterar o ADN. O quase-estático campo magnético da Terra, que é aliás muito mais intenso que o gerado por qualquer linha portuguesa de Alta Tensão, até nos protege dos efeitos cancerígenos da radiação cósmica e das partículas de alta energia dos ventos solares, desviando-as para os pólos.
Na verdade, os especialistas em energia elétrica nunca usam o termo “radiações” para se referirem aos campos eletromagnéticos das linhas de Alta Tensão. Quem começou a usar esse termo, explorando um reflexo condicionado de medo que todos temos da radioatividade, foi o jornalista americano Paul Brodeur do semanário New Yorker, há cerca de 15 anos. Brodeur escreveu vários livros em que pregou a existência de uma grande conspiração das empresas de eletricidade, dos fabricantes de equipamentos, dos media, do Pentágono e dos Governos para esconderem supostos malefícios das “radiações” eletromagnéticas, apresentados de forma semelhante aos da radioatividade.

2- O ruído emitido pelas linhas de Alta Tensão é uma manifestação de radiações?

Não. Mesmo junto aos condutores das linhas de Muito Alta Tensão, quando há irregularidades na sua superfície resultantes da acumulação de poeiras ou de gotas de chuva ou nevoeiro, o campo elétrico das linhas pode ionizar as moléculas de ar, que é o que causa o ruído referido. Esse campo decai muito rapidamente com a distância à superfície dos condutores e, por isso, essa ionização só ocorre numa fina coroa de ar em torno dos condutores, razão por que o fenómeno é conhecido como “efeito coroa”. A partir de alguns centímetros de distância da superfície dos condutores já não há ionização. O ar ionizado pelo efeito coroa nas linhas de Muito Alta Tensão mistura-se depois com o outro e pode ser levado pelo vento até alguns quilómetros de distância.
O cientista DL Henshaw da Universidade de Bristol defendeu, em 1996, que essa ionização do ar pelo efeito coroa poderia aumentar a deposição de rádon, um elemento radioativo natural proveniente de certos granitos e existente normalmente na atmosfera, assim como outras partículas nocivas para a saúde, na vizinhança das linhas de Muito Alta Tensão. Porém, a esmagadora maioria dos cientistas especialistas no assunto não acredita que daí possam decorrer riscos para a saúde, visto haver campos elétricos naturais permanentes na atmosfera que causam o mesmo efeito. Em 2004, a Comissão Nacional de Proteção Radiológica inglesa publicou um relatório com o que se sabe sobre o tema. As conclusões são que a eletrização das partículas normalmente suspensas no ar pelos iões gerados pelo efeito coroa podem, de facto, aumentar o depósito nos pulmões de alguns poluentes normalmente existentes na atmosfera, como as finas partículas dos fumos de escape dos automóveis ou do tabaco. Esse efeito, a existir, poderia teoricamente traduzir-se num muito pequeno aumento de doenças respiratórias, mas a observação não o confirma.
Por outro lado, a ionização do ar é considerada como sendo bactericida e, por isso, nos últimos anos têm-se vindo a propor e a experimentar com sucesso aparelhos de ar condicionado ionizantes como forma de desinfectar o ar em hospitais e em grandes edifícios de escritórios.

3- Que riscos para a saúde pública podem resultar da exposição aos campos electromagnéticos das linhas de Alta Tensão?

A resposta depende das instituições em que confiarmos. A Organização Mundial de Saúde, por exemplo, considera presentemente que para campos muito intensos, no que diz respeito ao campo magnético só valores acima de 500 microtesla (unidade que mede o campo magnético) podem ter algum efeito sobre o sistema nervoso, mas mesmo nas piores condições o campo magnético das linhas de Muito Alta Tensão não ultrapassa os 30 microtesla. Quanto ao campo elétrico, aquela organização considera que só há efeitos sobre o sistema nervoso (e não necessariamente nocivos) acima dos 10 kV/m, o que só é possível de atingir muito perto dos condutores de Alta Tensão. Estes limiares correspondem a reconhecidos efeitos agudos e foram traduzidos numa recomendação da OMS de 1998, adoptada pela Comunidade Europeia em 1999 e que veio a ser posta na lei portuguesa em 2004, contendo factores de segurança adicionais para o público em geral.
Além destes efeitos agudos, a OMS considera ser possível, embora não seja provado nem sequer provável, que campos magnéticos de muito mais baixa intensidade possam estar associados a algumas raras formas de cancro (vd. resposta à pergunta nº 5), para o que recomenda a adoção de medidas de precaução desde que não ponham em causa os benefícios sociais e para a medicina da eletricidade, e tenham custos baixos ou nulos. Estas posições são também adotadas pelos organismos de Saúde da Comunidade Europeia.
Muitas instituições científicas mundiais, como a Sociedade Americana de Física, a Academia de Ciências norte-americana e Associações Internacionais de Engenheiros Eletrotécnicos, não reconhecem entretanto qualquer risco na exposição a campos eletromagnéticos de baixa intensidade.
Porém, há uma instituição incorporando alguns cientistas, o Grupo internacional “Bioiniciativa” (vd resposta à pergunta nº 12), que considera os campos eletromagnéticos, que designa por “radiações”, suspeitos de serem causa de uma extensa lista de patologias similares às atribuídas à radioatividade, e que reclama medidas radicais contra as fontes de campos eletromagnéticos, nomeadamente o enterramento generalizado das linhas de Alta Tensão.

4- O que é a Organização Mundial de Saúde (OMS)? Como estabelece as suas posições?

A Organização Mundial de Saúde, OMS, é o organismo das Nações Unidas (ONU) para as questões de saúde, e foi criada com esta em 1948. Além de conjugar contribuições de todos os países membros que o queiram, dispõe de um staff permanente de 8 mil cientistas. A OMS inclui uma Unidade de Saúde Ambiental e Radiação (RAD) que promove um projeto internacional sobre Campos Eletromagnéticos e que conta com algumas instituições especializadas que têm promovido estudos e relatórios neste domínio, nomeadamente a Agência Internacional para a Investigação do Cancro (IARC) e a Comissão Internacional para a Proteção contra Radiações não-ionizantes (ICNIRP).
Na elaboração das suas monografias e relatórios sobre campos eletromagnéticos, os cientistas da OMS começam por produzir um documento preliminar que é depois divulgado para apreciação prévia por mais de 150 instituições mundiais. Recolhidas as críticas e comentários destas instituições, elas são revistas por um Grupo de Trabalho nomeado pela OMS, com perto de 10 elementos todos de países diferentes, coadjuvados por vários grupos de peritos que totalizam cerca de 50 cientistas, e que só aprovam o documento final após obterem unanimidade de todos os seus membros. Todos os cientistas colaboradores da OMS têm de assinar uma declaração de interesses, de modo a clarificar eventuais compromissos financeiros ou de ativismo político-ideológico que possam ter nesta matéria.

5- É verdade que a OMS considera os campos magnéticos como sendo cancerígenos?

Não exatamente. O que a OMS subscreve é a posição definida em 2002 pela IARC e reafirmada em 2007, segundo a qual “existe uma evidência limitada para a carcinogenicidade humana dos campos magnéticos de Baixa Frequência relativamente à leucemia infantil”, e que “não existe evidência adequada para a carcinogenicidade humana desses campos em relação a todas as outras formas de cancro”, esclarecendo ainda que isso não se estende a campos elétricos nem a animais.
A IARC mantém uma tabela de classificação de vários elementos quanto à sua carcinogenicidade, que vai dos comprovadamente cancerígenos como o tabaco, o amianto, o álcool, o rádon, os raio-X e a luz solar (75 elementos), aos não classificáveis quanto à carcinogenicidade. Depois dos comprovadamente cancerígenos, a IARC lista em perigosidade os provavelmente cancerígenos (59 elementos), que incluem os fumos de escape dos motores Diesel e os PCB, e finalmente os possivelmente cancerígenos, que são muitos (225 elementos). Estes, que incluem o café, os fumos de escape dos motores a gasolina e os “pickles”, são onde se incluem também os campos magnéticos de baixa frequência. Para a IARC um agente “possivelmente cancerígeno” é aquele cujas evidências de carcinogenicidade em seres humanos são considerada credíveis, mas para as quais não se exclui a possibilidade de outras explicações.
Frequentemente esta classificação da IARC é citada sem se precisar que ela se aplica apenas à leucemia infantil e que exclui expressamente todas as outras formas de cancro.

6- Que evidências considera a OMS existirem para a sua posição sobre a carcinogenicidade dos campos magnéticos?

As evidências existentes são duas análises de conjunto (“pooled analysis”) de muitos estudos epidemiológicos feitos nos EUA, Canadá e vários países da Europa do Norte, abrangendo mais de 100 milhões de pessoas ao longo de várias décadas, e em que num deles se observou, perto de linhas de Alta Tensão, um total de 44 casos de leucemia infantil quando seriam de esperar, na ausência dessas linhas, de 14 a 35, e no outro, mais abrangente, registaram-se 98 casos quando seriam de esperar de 42 a 85 casos. Relativamente ao valor médio esperado, o primeiro estudo aponta para uma duplicação do que seria normal mas, em números concretos, o que se observou, para uma enorme população e várias décadas, foram 44 casos quando a média normal esperada seria de 24.

7- Porque diz a OMS que ainda não há certezas sobre a carcinogenicidade dos campos magnéticos?

Por duas razões: a primeira é que nenhum estudo laboral confirmou qualquer mecanismo explicativo de como poderá o campo magnético à frequência das redes de energia causar alterações no ADN, nem isso é considerado fisicamente plausível, por esses campos induzirem efeitos no interior do corpo humano muito inferiores aos dos próprios campos naturais deste.
A segunda razão é um conjunto de fraquezas dos estudos epidemiológicos realizados e que têm sido criticadas por vários cientistas de competência reconhecida pela OMS. Na realidade, estes estudos, que consistem em comparar o número de casos de doença verificados com o estatisticamente esperado na ausência dos campos magnéticos, defrontam-se com duas grandes dificuldades: a primeira é que a leucemia infantil é uma doença muito rara (1 caso-ano por cada 30 mil crianças, em média), e a segunda é que pouca gente vive perto de linhas de Muito Alta Tensão (0.5% da população, na Europa). A combinação destas duas raridades cria um número muito pequeno de leucemias infantis na vizinhança das linhas de Alta Tensão, o que acarreta grandes incertezas estatísticas, mesmo quando muitos estudos desses são fundidos em análises de conjunto.

8- O que falta saber para se ter a certeza sobre os efeitos da exposição do campo magnético para a saúde?

Dada a extensão e inconclusibilidade dos estudos epidemiológicos já realizados e relativos à leucemia infantil, alguns conceituados cientistas consideram que não vale a pena fazer mais. Por outro lado, também já foram gastos muitos milhões de euros e dólares em estudos laboratoriais igualmente
inconclusivos. Na verdade, é muito difícil provar que um qualquer agente é inofensivo para a saúde, embora em 2008 ainda prossigam alguns grandes estudos do tipo dos já realizados, agora aperfeiçoados, nos EUA. Por estas razões, a própria OMS considera que o esclarecimento deste assunto passa pela compreensão é do processo de desenvolvimento da leucemia infantil, a qual teve recentemente (Janeiro de 2008) um grande progresso com a identificação dos genes envolvidos nas mutações cancerígenas que a iniciam.
Presentemente pensa-se que a maioria dos casos desta doença, que em regra se manifesta antes dos 3 anos de idade, resulta de uma predisposição genética presente em cerca de 1% das crianças, promovida depois por uma reacção imunológica desadequada a uma infeção vulgar, como uma constipação ou uma gripe. Um fato interessante comprovado, por exemplo, é que nas crianças expostas desde muito cedo ao ambiente de infantários com pelo menos outras 3 crianças, a taxa de leucemia infantil é metade da que se verifica nas que ficam sempre em casa, no 1º ano de vida, com mães domésticas; a exposição precoce a contágios infeciosos parece amadurecer saudavelmente o sistema imunitário. A leucemia infantil também é ligeiramente mais frequente nas famílias ricas, o que se pensa resultar de estas terem ambientes mais assépticos em casa.
Há, naturalmente, outros agentes causadores da leucemia infantil, como a radioactividade e os raios-X. Quanto a estes comprovou-se que aumentam em 50% o respectivo risco quando as mães os recebem durante as gravidezes. Por este motivo, aliás, se deixou de praticar medicamente raios-X a grávidas.

9- Se as suspeitas sobre a carcinogenicidade do campo magnético das linhas de Alta Tensão se confirmarem, que taxa de mortalidade daí decorre para Portugal?

Em primeiro lugar temos de calcular a taxa de morbilidade associável às linhas de Alta Tensão.
Para isso temos de começar por saber qual o número de casos de leucemia infantil observado em média em Portugal. Podemos usar dois processos: o primeiro é usar as estatísticas da Direcção-Geral de Saúde e dos IPO, e o segundo é extrapolar dos números espanhóis (3.4 casos por cada 100 mil menores de 15 anos), e também se pode combinar os dois processos. A razão da necessidade destes cálculos é que infelizmente não se consegue encontrar esse número exato nas estatísticas publicadas em Portugal. O número calculado é de cerca de 50 por ano.
Como só 0,5% da população vive “magneticamente perto” das linhas de Alta e Muito Alta Tensão, isto conduz ao número de uma leucemia infantil esperada, cada 4 anos, “perto” dessas linhas.
Admitindo que, como no estudo mais pessimista em que se baseou a IARC para a sua classificação dos campos magnéticos como possivelmente cancerígenos, estes duplicam a incidência da doença, então àquele caso normal teremos de adicionar outro, associado aos referidos campos.
Outra via para estimar o referido número é admitir que será semelhante ao calculado na Suécia pelo estudo epidemiológico ali realizado em 1993, considerando que esse país tem 9 milhões de habitantes, o que conduz ao mesmo número de uma leucemia infantil cada 4 anos associada às linhas AT.
Em segundo lugar temos de considerar a taxa de mortalidade da leucemia infantil, hoje em dia uma doença com uma elevada taxa de cura nos países mais desenvolvidos como a França ou os EUA. Nesses países, a taxa de cura (sobrevivência ao fim de 5 anos) é presentemente de 85%, mas alguns números apontam para que, em Portugal e infelizmente, ainda seja de só 60%.
Assim, se considerarmos o estado recente da medicina portuguesa, teríamos uma morte esperável cada 10 anos (4/0,40); mas se acreditarmos que ela vai melhorar no sentido da francesa teríamos uma morte esperável cada 25 anos (4/0,15)…!
Para se ter uma ideia destes números, vale a pena notar os seguintes: número anual de mortes de crianças por acidente em Portugal: mais de 500, dos quais a maioria de viação; número anual de mortes em acidentes de trabalho com eletricidade, em Portugal: 12.

10- O que quer dizer exactamente a OMS quando recomenda o princípio da precaução relativamente aos campos magnéticos?

Num relatório publicado em Junho de 2007 (“facts sheet nº 238”), a OMS explicita o que entende precisamente com tal recomendação, a saber, e no que respeita a medidas técnicas:

 “Justifica-se e é razoável a implementação de medidas de muito baixo custo para reduzir a exposição (aos campos magnéticos de extremamente baixa frequência, EBF), desde que isso não comprometa os benefícios para a saúde, sociais e económicos da energia elétrica;

Os políticos, os planificadores das comunidades e os fabricantes deverão implementar medidas de muito baixo custo quando construam novas instalações ou desenvolvam novos equipamento, incluindo eletrodomésticos;

Deverão considerar-se mudanças nas práticas de engenharia para se reduzir a exposição aos campos EBF de equipamentos e dispositivos, desde que isso produza outros benefícios adicionais, tais como maior segurança, ou um custo pequeno ou nulo;  

Quando se contemplarem alterações a fontes de campos EBF existentes, a redução desses campos deverá ser considerada paralelamente com a dos aspetos de segurança, de fiabilidade e económicos.”

A OMS justifica esta ênfase nos custos “baixos ou nulos” que deverão ter as medidas precaucionais de redução de exposição aos campos magnéticos EBF, da seguinte forma: “… a energia elétrica comporta óbvios benefícios para a saúde, sociais e económicos e as medidas precaucionais não deverão comprometer estes benefícios. Mais ainda, considerando quer a fraqueza da evidência de um elo entre a exposição aos campos magnéticos de EBF e a leucemia infantil, quer o limitado impacto sobre a saúde pública se esse elo existir, os benefícios para a saúde da redução da exposição não são claros. Por conseguinte os custos das medidas precaucionais deverão ser muito baixos.”
A estas afirmações da própria OMS, pode-se acrescentar: é provável que os estudos em curso sobre a leucemia infantil venham a clarificar de vez a eventual relação entre os campos magnéticos das linhas de Alta Tensão e aquela doença nos próximos anos. Essa relação pode não existir de todo, ou existir através de mecanismos indirectos, cuja solução passe por medidas técnicas que nada têm a ver com as linhas como, por exemplo e segundo certos autores, os sistemas de ligação à terra das canalizações metálicas de água das banheiras usadas nos EUA e na Europa do norte.
Seria um disparate social e económico ter apostado em dispendiosas e dificilmente reversíveis políticas de alteração das redes elétricas e vir-se entretanto a provar definitivamente a inexistência de qualquer relação directa entre a exposição aos campos magnéticos dessas redes e a leucemia infantil, como já está provado relativamente às doenças cardiovasculares e ao cancro da mama (que, por serem muito frequentes, já permitiram estudos epidemiológicos conclusivos).

11- A legislação portuguesa cumpre as recomendações internacionais sobre a limitação pública aos campos magnéticos?

Desde 2004 que cumpre as recomendações da OMS e do CE, como foi respondido à pergunta nº3.

12- O que é o grupo “Bioiniciativa”? Como estabelece as suas posições?

 O grupo “Bioiniciativa” é um grupo ad-hoc de cerca de dezena e meia de investigadores, constituído em 2006, e que contesta as posições da OMS, reclamando que se deverão tomar medidas de precaução contra as linhas de Alta Tensão muito mais radicais que as recomendadas por aquela instituição, proclamando também que as evidências de malefícios para a saúde da exposição dos seus campos eletromagnéticos são muito mais severos que os reconhecidos pela OMS.
O grupo “Bioiniciativa” é dirigido pela Sr.ª Cindy Sage, uma ativista anti-“radiações eletromagnéticas” desde há cerca de 25 anos, de cujo curriculum público não consta qualquer formação académica mas que é proprietária da empresa “Sage Associates EMF Design - Environment Consultants”, a qual tem uma agressiva política comercial, nos EUA, com grande audiência mediática, vendendo serviços que vão da “protecção pessoal” ao “projecto de interiores” passando pelo projeto de “linhas aéreas com baixa emissão de campos magnéticos” e até o download de textos e vídeos pagos. Apesar desta lucrativa atividade da sua dirigente, o grupo “Bioiniciativa” acusa os cientistas da OMS de estarem “vendidos” aos interesses das grandes companhias de eletricidade e, em geral, atribui aos campos magnéticos, a que chama “radiações”, o tipo de malefícios atribuídos à radioatividade. Pode-se afirmar, portanto, que o grupo “Bioiniciativa” prossegue as teses do jornalista Paul Brodeur referidas na resposta á pergunta nº 1, mas acrescentando-lhe um grande sentido de oportunidade comercial.
Em Setembro de 2007 o grupo “Bioiniciativa” publicou um volumoso documento, que se assume explicitamente como um relatório contra as posições da OMS, e que tem encontrado grande acolhimento em certas franjas políticas mais radicais de vários parlamentos europeus e nos EUA. Pela sua clara posição de princípio contestatária, a formação de opinião do grupo “Bioiniciativa” não é reconhecida pela OMS como obedecendo às práticas científicas internacionalmente consensuais.

13- É verdade que os limites de exposição ao campo magnético definidos pela legislação nacional são mil vezes superiores aos limites estipulados internacionalmente?

Depende do que se entender por “estipulado internacionalmente”. A única instituição internacional que defende a limitação da exposição pública aos campos magnéticos a 0,1 microtesla, de facto um milésimo dos 100 microtesla recomendados pela OMS, é o grupo “Bioiniciativa” caracterizado na resposta à pergunta nº 12.
As recomendações da OMS são coadjuvadas pela Comunidade Europeia para os respetivos estados membros, conforme se pode ler no relatório mais recente (Março de 2007) do SCENIHR – Scientific Committee on Emerging and Newly Identified Health Risks, da Direção-Geral de Proteção dos Consumidores e de Saúde da União Europeia.

14- As linhas de Alta Tensão são a principal fonte de exposição pública aos campos magnéticos?

Na sua proximidade, em geral são. Porém, os circuitos de Baixa Tensão residenciais e os eletrodomésticos também nos expõem a campos magnéticos, que em geral não ultrapassam, em média, 0,1 microtesla (por sinal precisamente o limite reclamado pelo grupo “Bioiniciativa”). Nos EUA a exposição residencial é maior, atingindo os 0,2 microtesla. É aliás apenas por este motivo que os limiares investigados para a exposição aos campos magnéticos das linhas de Alta Tensão se têm situado entre os 0,2 e os 0,4 microtesla, já que se fossem mais baixos seriam indiscerníveis dos produzidos na Baixa Tensão.
A poucos metros das linhas aéreas, os campos magnéticos podem atingir alguns microtesla.
Porém, valores similares se observam no interior dos automóveis modernos, produzidos pela rotação dos pneus radiais que se tendem a magnetizar com o tempo, e valores bastante superiores são frequentes em comboios, na vizinhança das suas linhas elétricas e no metropolitano.
Por outro lado, também sobre os passeios de algumas ruas, debaixo dos quais há invisíveis cabos elétricos subterrâneos de Média e de Alta Tensão, assim como em alguns pisos de edifícios próximos desses cabos e de transformadores de distribuição montados no interior de edifícios, os campos magnéticos podem atingir alguns microtesla, valores frequentemente superiores aos observados a algumas dezenas de metros das linhas aéreas de Muito Alta Tensão.

15- Que medidas de precaução têm sido tomadas noutros países relativamente à exposição aos campos magnéticos?

A esmagadora maioria dos países europeus adotou, como Portugal, a recomendação do Conselho Europeu de 1999 no sentido de se assumirem os limites recomendados pela OMS em 1998, mas poucos o puseram na lei como Portugal.
Fora da Europa são raros os países que adotaram as recomendações da OMS e mudaram alguma coisa, com exceção da China e do Japão.
Há, entretanto, alguns poucos países e Estados norte-americanos que têm estado a adotar nos últimos anos medidas de precaução contra a exposição aos campos magnéticos bastante mais restritivas que os recomendados pela OMS, concretamente e por ordem decrescente de exigência quanto aos campos magnéticos máximos admitidos: Suíça, Israel, Holanda, Califórnia, Itália e Eslovénia. Porém, em caso algum se adotou aí uma política generalizada de enterramento das linhas, sendo a medida mais vulgar a de aumentar as distâncias das novas linhas a residências e sobretudo a escolas, a de criar corredores para as novas linhas com construção interdita e largura
variável e, na Suíça, Israel, Califórnia, Japão e Itália também em certos casos a modificação da geometria dos apoios de linhas já existentes (ver resposta à pergunta nº 19).
Na Irlanda, por exemplo, a distância mínima permitida entre as novas linhas e edifícios pré-existentes é de 22 metros; no Luxemburgo é de 30 metros, mas apenas para novas zonas residenciais; em Israel cresce com o nível de tensão, indo dos 3 metros para tensões até 110 kV aos 35 metros para os 400 kV; na Califórnia os corredores de interdição também aumentam com o nível de tensão, mas só relativamente a escolas: vão dos 50 metros para 50 e 133 kV, aos 120 metros para os 500 kV. Um único país afirma que vai enterrar todas as linhas, embora isso seja uma medida em curso em muitos países islâmicos por razões provavelmente mais de precaução político-militar do que de saúde pública: a Turquia.

16- Por que é que não há linhas de Alta Tensão nas zonas residenciais dos ricos?

É provavelmente certo que toda a gente viveria em grandes vivendas com jardim e vistas desimpedidas para o mar e para a montanha ou a floresta, se pudesse. Mas desafortunadamente nem toda a gente pode, embora em alguns países haja mais gente a viver assim que noutros.

17- Enterrar as linhas de Alta Tensão resolve o problema da exposição pública aos seus campos magnéticos?

Só parcialmente. O campo magnético a que se está exposto na proximidade de uma linha aérea é proporcional à distância entre os respectivos 3 condutores de fase, e inversamente proporcional ao quadrado da nossa distância média à linha. Quando uma linha de Alta Tensão é substituída por um cabo subterrâneo, neste os 3 condutores de fase estão mais próximos uns dos outros, mas em contrapartida o seu conjunto está muito mais próximo da superfície do solo do que o da linha aérea. Daqui resulta que, para lá de alguma distância, digamos 5 metros, o campo magnético do cabo subterrâneo é de facto substancialmente menor que o emitido pela linha aérea mas, em contrapartida, na sua imediata vizinhança, por exemplo por cima do cabo, o campo magnético é muito superior ao que há debaixo da linha aérea! Para reduzir a exposição média ao campo magnético ao limite definido recentemente na Suíça e Israel (ver resposta à pergunta nº 15), e que é de 1 microtesla, para uma linha de 400 kV será necessária uma distância mínima ao eixo da linha
de pelo menos 30 metros, atingindo-se mais de 5 microtesla directamente sob os condutores; se a linha for substituída por um cabo subterrâneo da mesma tensão e capacidade, a distância a proibir será apenas de 5 metros, mas exatamente sobre o cabo o campo será de quase 25 microtesla.
Por conseguinte, a substituição de uma linha aérea por um cabo subterrâneo reduz a largura do “corredor” de interdição, mas não o elimina e até intensifica o campo magnético na imediata proximidade, apesar da invisibilidade dos cabos poder criar uma falsa ilusão de inexistência desse campo.

18- Que custos tem enterrar as linhas de Alta Tensão?

Numa linha aérea, o isolamento é realizado essencialmente pelo ar. Num cabo subterrâneo o isolamento é feito por plásticos, sendo o respetivo fabrico muito delicado para as muito altas tensões.
Por este motivo, o custo dos cabos subterrâneos cresce em flecha com a tensão para que são projetados, razão por que geralmente não são usados acima de 60 kV, ou seja, nas redes de transmissão como a da REN. Na União Europeia, um relatório comunitário contabiliza em 100 km a extensão total de cabos a 400 kV, e em 110 000 km a das linhas aéreas correspondentes.
Para tensões como os 220 e os 400 kV, um cabo subterrâneo custa, por km e respetivamente, cerca de 6 e 10 vezes mais que uma linha aérea da mesma tensão e capacidade (cujo custo se pode tomar indicativamente como 1 milhão de €/km para os 400 kV e 30% disso para os 220 kV, embora tal dependa do trajeto da linha e, por consequência, do tipo e número de torres de apoio de que necessitará e que constituem mais de metade desse custo). Porém, a vida útil de um cabo (20 a 30 anos) é de apenas cerca de metade do de uma linha aérea equivalente, pelo que a longo prazo o custo do cabo é de fato cerca de 13 a 20 vezes o da linha, respetivamente para os 220 e os 400 kV. Este custo inclui o cabo propriamente dito e o custo de o enterrar, nomeadamente a
preparação do leito de terreno para a sua correta colocação e dissipação de calor, que para estes níveis de tensão requer em regra a construção de túneis especiais. A União Europeia estima em pelo menos 5 milhões de € por quilómetro o custo médio adicional de enterrar linhas de 400 kV (vd. documento “ETSO position on underground cables”, de 2003). É de notar que face à pressão pública existente em alguns meios para o enterramento das linhas aéreas, são por vezes indicados valores idealisticamente baixos para os custos dos cabos; é, neste contexto, importante não ignorar o grande interesse comercial que a indústria fabricante de cabos tem nesse enterramento.
Além destes custos, é de ter em conta que ao longo da sua vida uma linha pode ser melhorada com relativa facilidade, por exemplo pela modificação dos seus isoladores de suspensão ou pela substituição dos seus condutores por outros de maior capacidade; num cabo enterrado essa evolução é impossível. Por outro lado, o número de avarias por km e por ano que exigem reparação é similar nas linhas aéreas e nos cabos subterrâneos de Muito Alta Tensão. Porém, enquanto a localização das avarias numa linha aérea é quase imediata e a sua reparação uma questão de horas, a localização do ponto da avaria num cabo enterrado é muito mais complexa e a respetiva reparação pode demorar semanas, com a correspondente indisponibilidade de transmissão de energia.
Aliás e por causa disso, a previsão das futuras necessidades de acesso para reparação de um cabo subterrâneo requer que na superfície que o cobre fique permanentemente disponível um corredor, impossibilitando qualquer outro uso exceto uma cobertura de relva. Esse corredor deverá ter, para um cabo de 400 kV, 13 a 14 metros de largura, o equivalente a uma estrada secundária.

19- Há alternativas técnicas e baratas ao enterramento das linhas de Alta Tensão que reduzam a exposição pública aos seus campos magnéticos?

Efetivamente há. Em primeiro lugar, a montagem dos 3 condutores de uma linha em trevo invertido emite sempre menos campo magnético do que a montagem em esteira horizontal, ainda que isso não seja usual nas pesadas torres de sustentação das linhas usadas na Muito Alta Tensão.
Há depois outras medidas ainda mais eficazes. A primeira e mais barata é, no caso de se usarem linhas duplas (dois feixes de três condutores partilhando as mesmas torres de apoio), a escolha adequada da geometria dos apoios e a otimização da sequência de fases dos condutores. Esta otimização pode reduzir o campo magnético emitido a uma fração do que existe sem ela, e a distância de interdição a menos de metade, mas tem se der feita para toda a linha, do seu início ao seu fim, com um custo fixo entre 350 e 1300 milhares de € independente da extensão da linha.
Uma segunda medida, a adotar pontualmente em linhas de muito alta tensão, é o desdobramento dos seus 3 condutores em vários, com geometrias otimizadas e torres de apoio especiais para esse desdobramento e que, sendo uma solução mais complexa e cara que a anterior, é ainda mais eficaz que a anterior e pelo menos dez vezes mais barata que o enterramento, embora também nem sempre seja possível ou suficiente. Na Holanda, um estudo encomendado pelo Ministério do Ambiente do seu Governo à empresa KEMA, mostrou em 2002 que o custo estimado por edifício “desexposto” ao campo magnético das linhas de Alta Tensão seria de 18, 55, 128 e 655 milhares de €, respetivamente para as soluções de otimização de fases em linhas duplas, desdobramento de condutores, deslocalização da linha e o seu enterramento.
Para níveis de tensão mais baixos, usados na Distribuição pela EDP, há outro tipo de soluções eficazes, como a compactação das linhas usando condutores revestidos por isolamento de plástico e que reduz o campo magnético emitido por reduzir a distância entre condutores, e que a EDP aliás já usa em certas zonas para proteção da avifauna.

20- Que recomendações faz a OMS aos políticos relativamente à exposição pública aos campos magnéticos das linhas de Alta Tensão?

No seu documento publicado em Junho de 2007, a OMS começa por recomendar às forças políticas que adotem os guias internacionais sobre a limitação da exposição pública e dos trabalhadores aos campos magnéticos, o que Portugal já realizou em 2004. Porém, a OMS recomenda ainda que “os políticos devem estabelecer um programa de proteção contra os Campos Eletromagnéticos de EBF que inclua medições de todas as suas fontes, de modo a garantir que os limites de exposição não sejam excedidos tanto para o público em geral, como para os trabalhadores”, o que não parece já ter sido realizado em Portugal pelo menos de forma publicamente visível.
Por outro lado, recomenda a OMS às “autoridades nacionais” que “realizem uma estratégia eficaz e aberta de comunicação para permitir a tomada de decisões informadas por todas as partes interessadas; isto deve incluir informação sobre como podem os indivíduos reduzir a sua própria exposição”. E afirma a OMS, quanto às “autoridades locais”, que “ devem melhorar a planificação de instalações emissoras de CEMEBF, incluindo uma melhor consulta entre a indústria, o governo local e os cidadãos, ao localizarem as fontes principais de emissão de CEMEBF.”
No fundo, o que a OMS recomenda aos responsáveis políticos é que mostrem sensibilidade aos medos dos cidadãos, quer mostrando empenho fiscalizador, quer esclarecendo, quer promovendo o diálogo entre as partes. Para esse efeito a OMS publicou até, em 2005, um detalhado “guia de diálogo” de que existe on-line uma versão em português (do Brasil).

Reflexão:

Espero que tenham gostado e ficado esclarecidos tanto quanto eu fiquei na pesquisa e estudo desta temática. Observamos que apesar das opiniões sobre o tema da perigosidade para a saúde pública não serem unânimes, é possível através destas compreender a posição da OMS que subscreve que as medidas atualmente adotadas pela grande maioria dos países são as indicadas, assim como Portugal que legislou as medidas indicadas pela OMS.
Quero ainda deixar a minha inteira disponibilidade para o caso de ter permanecido alguma dúvida. Podem colocá-la neste espaço e tudo farei para a responder de forma clara e devidamente fundamentada.
Mais uma vez muito obrigado e até breve, uma feliz Páscoa para todos…. J

Bibliografia:

1. REN. Sustentabilidade. Campos Eletromagnéticos. [Online] 2012. [Citação: 09 de Abril de 2014.] https://www.ren.pt/sustentabilidade/ambiente/campos_electromagneticos/.

2. Distribuição, EDP. Campos Eletromagnéticos. [Online] [Citação: 08 de Abril de 2014.] http://www.edpdistribuicao.pt/pt/ambiente/desempenhoambiental/Pages/camposEletromagneticos.aspx.

3. Dickman, EDMUNDO RODRIGUES JUNIOR - Adriana Gomes. POSSÍVEIS EFEITOS BIOLÓGICOS DAS RADIAÇÕES NÃO - IONIZANTES: RADIAÇÃO ULTRAVIOLETA, E , MICROONDAS. Outubro de 2008.

4. DISTRIBUIÇÃO, EDP. Campos Electromagnéticos de Extremamente Baixa Frequência (EBF). Coimbra e Setubal : s.n., 2009.

5. José Luís Pinto de Sá, Prof. Dr. Engº. 20 PERGUNTAS FREQUENTES SOBRE LINHAS DE ALTA TENSÃO E SAÚDE PÚBLICA. INSTITUTO SUPERIOR TÉCNICO : s.n., Fevereiro de 2008.


sexta-feira, 11 de abril de 2014

Campos Eletromagnéticos

Nesta publicação vamos abordar um dos temas em maior destaque nos dias de hoje, assim como as questões que colocam, são eles os campos eletromagnéticos:
A eletricidade é essencial no dia a dia dos países desenvolvidos. Assim, é importante caraterizar os Campos Eletromagnéticos (CEM) para efeitos da sua interação com os seres vivos:

Os CEM podem ser divididos entre campos elétricos e magnéticos estáticos e de baixas-frequências, onde se incluem as linhas de transporte de eletricidade, eletrodomésticos e computadores, e campos de altas-frequências ou de radiofrequências, onde se incluem os radares, emissoras de rádio e televisão, telemóveis, entre outros.

Figura nº 1

As linhas de transporte e de distribuição de energia (muito alta, alta, média e baixa tensão), os postos de transformação, as instalações elétricas domésticas, e os equipamentos elétricos (por exemplo ferros de engomar, secadores de cabelo, máquinas de barbear, aspiradores, torradeiras) são fontes de exposição ambiental aos CEM. Nas baixas frequências (da ordem dos 50 Hertz), como são estes casos, os campos elétricos e magnéticos podem ser considerados de forma separada e não existe propriamente produção de onda eletromagnética.

Figura nº 2

As altas frequências (da ordem dos kilohertz, megahertz e gigahertz) designadamente as rádiofrequências e particularmente as hiperfrequências têm dois tipos de aplicações - são fontes de calor e funcionam como portadores de informação. A Organização Mundial de Saúde (OMS) diferencia as fontes de radiofrequências de alta e baixa potências. São exemplos de fontes de alta potência os emissores de radiodifusão sonora e de televisão, os radares de vigilância e de controlo de tráfego aéreo. São exemplos de fontes de baixa potência os telefones sem fios, os telecomandos e fornos microondas.

Dentro de qualquer organismo vivo existem correntes elétricas endógenas, que desempenham um papel importante designadamente na atividade neuromuscular.

Os efeitos da exposição externa do corpo humano e das suas células aos CEM dependem principalmente da sua frequência e magnitude ou intensidade. A observância dos limites de exposição recomendados nas regulamentações nacionais e internacionais ajuda a controlar os riscos das exposições a CEM que possam ser prejudiciais à saúde humana.
Fonte: OMS, Ed. 2002 "Estabelecendo um Diálogo sobre Riscos de Campos Eletromagnéticos".


Campos Extrema Baixa Frequência  (EBF)
Os Campos Elétricos e Magnéticos EBF (50 Hz) existem em todos os locais onde quer que a eletricidade seja gerada, transportada, distribuída e usada em equipamentos elétricos.



Figura nº 3

O Campo Elétrico externo é fortemente atenuado dentro do corpo humano devido às propriedades da pele, que a tornam praticamente como uma blindagem contra a penetração do campo. A própria presença do corpo modifica as linhas de força do Campo Elétrico.


Figura nº 4

Qualquer tipo de barreira física (paredes, árvores, etc.) constitui uma boa blindagem para o Campo Elétrico. Os Campos Elétricos não penetram de forma significativa no corpo mas criam uma carga à sua superfície.


Para o Campo Magnético não se verifica o efeito de blindagem da pele, o que faz com que a sua penetração no corpo humano induza correntes elétricas no seu interior, variáveis de acordo com a resistividade e forma dos órgãos em causa, com as dimensões do corpo e outras caraterísticas individuais.

Figura nº 5

A exposição a campos magnéticos provoca a circulação de correntes no corpo.





O Limite Básico para a população em geral (2 mA/m²) é cerca de 50 vezes inferior do limiar de percepção (100 mA/m²).

O Limite Básico para os trabalhadores do sector (10 mA/m²) é cerca de 10 vezes inferior ao mesmo limiar (100 mA/m²).

Garante-se desta forma a existência da margem de segurança suficiente para contemplar eventuais incertezas e imprecisões nos modelos e métodos de cálculo usados, assim como a grande variabilidade constitucional das pessoas (caraterísticas dos órgãos internos, idade, estado de saúde, etc.)

Soluções técnicas possíveis no âmbito dos campos eletromagnéticos EBF:
•Enterramento de linhas
•Elevação da altura dos condutores
•Modificação da geometria dos condutores
•Blindagem magnética das linhas
•Desdobramento de linhas / condutores
•Utilização de condutores cobertos com espaçadores (Spacer Cable) 

Leucemia infantil associada aos Campos Eletromagnéticos de Extremamente Baixa-Frequência (CEMEBF), se se confirmassem as suspeitas epidemiológicas em Portugal.


Uma questão pertinente é a de quantos casos patológicos serão extrapoláveis para Portugal, caso porventura se confirmem as suspeitas epidemiológicas sobre a associação entre CEMEBF e leucemia infantil linfoblástica aguda.
Em primeiro lugar temos de considerar o número de casos de leucemia infantil linfoblástica aguda observado em média em Portugal. Podemos usar dois processos: o primeiro é usar as estatísticas da Direcção-Geral de Saúde e do IPO, e o segundo é extrapolar dos números espanhóis (3.4 casos por cada 100 mil menores de 15 anos), e também se podem combinar os dois processos. Podem também usar-se os apuramentos realizados por organismos particulares, como a Fundação Rui Osário de Castro. O número a que se chega é de cerca de 50 por ano.
Como só 0,5% da população vive “magneticamente perto” das linhas de Alta e

Muito Alta Tensão, isto conduz ao número de uma leucemia infantil esperada, cada 4 anos, “perto” dessas linhas e sem considerar qualquer efeito por estas. Admitindo que, como no estudo mais pessimista em que se baseou a International Agency for Research on Cancer  (IARC) para a sua classificação dos campos magnéticos, estes duplicam a incidência da doença, então àquele caso normal teremos de adicionar outro, associado aos referidos campos.
Outra via para estimar o referido número é admitir que será semelhante ao calculado na Suécia pelo estudo epidemiológico ali realizado em 1993, considerando que esse país tem 9 milhões de habitantes, o que conduz ao mesmo número de uma leucemia infantil cada 4 anos associada às linhas de Alta Tensão.
Em segundo lugar temos de considerar a taxa de mortalidade da leucemia infantil, hoje em dia uma doença com uma elevada taxa de cura nos países mais desenvolvidos como a França ou os EUA. Nesses países, a taxa de cura (sobrevivência ao fim de 5 anos) é presentemente de 85%, mas alguns números apontam para que, em Portugal, ainda seja de só 60 a 70%.


Assim, se considerarmos o estado recente da medicina portuguesa, teríamos uma morte esperável cada 12 anos; mas se acreditarmos que ela vai melhorar no sentido da francesa teríamos uma morte esperável cada 25 anos…!

A POSIÇÃO DA OMS SOBRE OS EFEITOS CRÓNICOS DOS CAMPOS ELECTROMAGNÉTICOS DE EXTRAMAMENTE BAIXA-FREQUÊNCIA  (CEMEBF): ATITUDE PRECAUCIONAL E APELO A MAIS INVESTIGAÇÃO


A posição da OMS sobre os eventuais efeitos cancerígenos do campo magnético e, em geral, dos CEMEBF, é a seguinte (extraída da monografia publicada em Junho de 2007):


“Para além dos efeitos agudos estabelecidos, há incertezas sobre a existência de efeitos crónicos por parte dos Campos EletroMagnéticos de Baixa Frequência (CEMEBF), devido às limitadas provas existentes sobre a relação entre a exposição aos campos magnéticos da corrente e a leucemia infantil. Por conseguinte, autoriza-se o uso de medidas precaucionais.
Contudo, não se recomenda que os valores-limite nos guias de exposição se reduzam a qualquer nível arbitrário em nome da precaução. Tal prática mina o fundamento científico sobre o qual os limites são baseados e é provável que seja uma maneira dispendiosa, e não necessariamente eficaz, de fornecer proteção.

É razoável e autoriza-se que se realizem outros procedimentos precaucionais apropriados à redução da exposição. No entanto, a energia elétrica comporta óbvios benefícios para a saúde, sociais e económicos, e as medidas precaucionais não os devem comprometer. Além disso, dada a fraqueza das provas de uma ligação entre a exposição aos campos magnéticos da
corrente e a leucemia infantil, assim como o seu impacto limitado na saúde pública se houver essa ligação, os benefícios para a saúde da redução da exposição não são claros. Por conseguinte, os custos das medidas precaucionais devem ser muito baixos. Os custos da redução
da exposição variarão de país para país, tornando muito difícil promover uma recomendação geral que equilibre os custos com o potencial risco dos CEMEBF.

Considerando o exposto, são feitas as seguintes recomendações:

Os políticos devem estabelecer guias para a exposição aos campos eletromagnéticos de baixa frequência tanto para o público em geral, como para os trabalhadores.
A melhor fonte de orientação, tanto para os níveis de exposição como para os princípios de avaliação científica, são os guias internacionais.

Os políticos devem estabelecer um programa de proteção contra os CEMEBF que inclua medições dos campos de todas as suas fontes, de modo a garantir que os limites de exposição não sejam excedidos tanto para o público em geral, como para os trabalhadores.

É razoável e autoriza-se a implementação de procedimentos precaucionais de muito baixo custo para reduzir a exposição, contando que os benefícios para a saúde, sociais e económicos da energia elétrica não sejam postos em causa.

Os políticos, os planificadores e os fabricantes devem implementar medidas de muito baixo custo ao construírem novas instalações e ao projetarem equipamento novo, inclusive eletrodomésticos.

Devem ser consideradas mudanças nas práticas de engenharia para reduzir a exposição aos CEMEBF gerados por equipamentos e dispositivos, desde que elas rendam benefícios adicionais, tais como uma maior segurança, ou um custo pequeno ou nulo.

Quando se considerarem mudanças nas fontes existentes de CEMEBF, a redução dos CEMEBF deve ser considerada em simultâneo com os aspectos de segurança, fiabilidade e economia.

As autoridades locais devem reforçar os regulamentos que tratem de cablagens, de forma a reduzir correntes à terra involuntárias na construção de novas instalações ou na recablagem de existentes, ao mesmo tempo que mantêm a segurança. Medidas proativas para identificar violações ou problemas em cablagens existentes seriam caras e provavelmente não justificadas.

As autoridades nacionais devem realizar uma estratégia eficaz e aberta de comunicação para permitir a tomada de decisões informadas por todas as partes interessadas; isto deve incluir informação sobre como podem os indivíduos reduzir a sua própria exposição.

As autoridades locais devem melhorar a planificação de instalações emissoras de CEMEBF, incluindo uma melhor consulta entre a indústria, o governo local e os cidadãos, ao localizarem as fontes principais de emissão de CEMEBF.

Os Governos e a indústria devem promover programas de investigação para reduzir a incerteza das provas científicas dos efeitos sobre a saúde da exposição aos CEMEBF.”


A OMS elenca também o conjunto de pesquisas científicas que considera prioritários como objeto dos programas de investigação recomendados, das quais se retiram as seguintes, a que é atribuída a importância primeira:

Estudos epidemiológicos:
- Atualização das análises estatísticas de conjunto da incidência de leucemia infantil;
- Análises estatísticas de conjunto sobre incidência de cancro infantil no cérebro;

Outros estudos:
- Desenvolvimento de modelos de ratos transgénicos para uso em estudos
com Campos Magnéticos;
- Avaliação de efeitos carcinogénicos com estudos in vitro;
- Determinação de limiares de resposta dos campos elétricos induzidos pelos CEMEBF em sistemas multi-celulares, usando estudos teóricos e in vitro.

Como se vê, a OMS não parece, presentemente, na disposição de rever a posição que a IARC tomou em 2002, ao apontar o campo magnético como um agente físico possível de eventuais aumentos de incidência da leucemia infantil.
Por outro lado, também a União Europeia possui organismos com posições definidas e revistas anualmente sobre esta questão. Assim, e por exemplo, o

Scientific Committee on Emerging and Newly Identified Health Risks. Pertence à Direcção-Geral de Protecção dos Consumidores e da Saúde da União Europeia reafirmou em Março de 2007 no seu relatório “Possible effects of EMF on Human Health” a opinião de que se mantém a conclusão de que os CMEBF são possivelmente carcinogénicos, essencialmente no que respeita à leucemia infantil, mas que no entanto as investigações mais recentes permitem concluir pela improbabilidade da sua associação a doenças cardiovasculares e ao cancro mamário.

MEDIDAS ADOPTADAS EM DIVERSOS PAÍSES


Uma síntese recente aponta para a seguinte situação em diversos países, no que respeita à proteção contra os campos eletromagnéticos por ordem crescente de exigência:

1. Países sem política oficial definida: Arménia, Uzbequistão, Cazaquistão,
Mongólia, Bahrain, Índia, Malásia, Tailândia, EUA e Canadá;

2. Países que estão a estudar a adoção das recomendações da International Commission on Non Ionizing Radiation Protection (ICNIRP): em geral os da América Latina - Colômbia, Uruguai, Chile…

3. Países que adotaram de facto as recomendações da ICNIRP, mas que as não obrigam por lei: Austrália, Nova Zelândia, Singapura, Coreia do Sul, Taiwan, Luxemburgo, Malta, Bélgica, Irlanda, Holanda, Alemanha, França, Reino Unido e Espanha;

4. Países que incorporaram as recomendações da ICNIRP na sua legislação nacional: Áustria, Finlândia, Grécia e Portugal;

5. Países que já tinham restrições mais severas que as recomendadas pela ICNIRP mas que se ajustaram a estas: Estónia, Hungria, Noruega, Croácia e República Checa;

6. Países com políticas mais exigentes que as recomendadas pela ICNIRP: Rússia, Polónia, China, Japão e Argentina.

As listas anteriores referem-se ao posicionamento internacional no que diz respeito às recomendações quantitativas da ICNIRP de 1998 (portanto, contra os efeitos agudos dos campos eletromagnéticos de baixa frequência), sendo de salientar que em alguns dos países referidos existem regiões com práticas diferenciadas, como é o caso dos EUA. É também notável o vanguardismo de Portugal na formalização legislativa das recomendações da ICNIRP, à frente da generalidade dos países europeus, como a Espanha, França, Alemanha, Reino Unido, Dinamarca, Suécia, Luxemburgo, Bélgica, Irlanda e Holanda...
Entretanto e indo mais longe, alguns países adotaram também, ou estão em vias de adotar, políticas precaucionais contra os eventuais efeitos crónicos dos campos eletromagnéticos, ajustando-se à orientação da OMS exposta no capítulo anterior.
Ou seja, políticas que visam acautelarem o alegado risco de cancro atribuído às linhas de Alta Tensão ou, pelo menos, corresponder aos medos públicos que lhe estão associados.

Alguns estados têm adotado soluções técnicas que passam por modificações na geometria das linhas e/ou pela elevação dos respectivos postes de sustentação, como o Japão, a Califórnia e Israel. Dois estados resolveram dedicar até 4% do custo das instalações a medidas que reduzam a exposição pública aos CEMEBF: Austrália e Califórnia.

Um único país anunciou a adoção de uma política generalizada de passagem a cabo subterrâneo das linhas de Alta e Muito Alta Tensão, incluindo desde 2006 as de 400 kV: a Turquia.


Entretanto, em alguns países tem-se procurado desenvolver análises de custo-benefício que suportem uma escolha optimizada entre as opções existentes de medidas precaucionais, sendo de realçar os casos da Holanda e do Reino Unido. É à luz análises de custo-benefício que se apresentarão, na parte II, soluções técnicas para a redução da exposição pública aos CEMEBF no cumprimento das recomendações da OMS.

Em Portugal a Assembleia da República promulgou, em 2 de Setembro de 2010, a lei nº 30/2010, com o título “Proteção contra a exposição aos campos elétricos e magnéticos derivados de linhas, de instalações e de equipamentos elétricos.

Esta lei “regula os mecanismos de definição dos limites da exposição humana a campos magnéticos, elétricos e eletromagnéticos derivados de linhas, de instalações ou de equipamentos de alta tensão e muito alta tensão, tendo em vista salvaguardar a saúde pública”.
No seu texto é referido que “compete ao Governo regulamentar, por decreto-lei, os níveis da exposição humana máxima admitida a campos eletromagnéticos, derivados das linhas, instalações ou equipamentos de alta e muito alta tensão a que se refere o artigo anterior, tanto para os casos de campos magnéticos, como para os de campos elétricos, no quadro das orientações da Organização Mundial de Saúde e das melhores práticas da União Europeia”.

Reflexão:

A EDP Distribuição tem mantido ao longo dos últimos anos um programa de vigilância das suas instalações, relativamente aos campos eletromagnéticos (CEM), no decurso do qual tem vindo a realizar milhares de medições das respetivas intensidades.

Da análise ao resultado destas medições, tem-se constatado que os valores observados, para os campos elétrico e magnético, são significativamente inferiores aos definidos na legislação portuguesa pela Portaria 1421/2004, a qual resulta da transposição da Recomendação Europeia 519/EC/1999.

Paralelamente, tem patrocinado a realização de diversos estudos e investigações sobre esta temática, em parceria com Instituições universitárias portuguesas tais como a Universidade de Coimbra e o Instituto Superior Técnico, podemos desta forma perceber a importância que a EDP Distribuição dedica a este tema, apesar de nenhum estudo laboratorial ter confirmado qualquer mecanismo explicativo de como poderá o campo magnético à frequência das redes de energia causar alterações no ADN. Nem isso é considerado fisicamente plausível, por esses campos induzirem efeitos no interior do corpo humano muito inferiores aos dos próprios campos naturais deste.

De forma a permitir uma maior informação relativamente a este tema comprometo-me a publicar em breve, 20 perguntas e respetivas respostas, frequentes sobre linhas de alta tensão e saúde pública. 


Fica aqui desde já mais um motivo para continuar a visitar este espaço “Na Vida em Saúde Ambiental”  http://tecnicosaudeambiental.blogspot.pt/.

Muito Obrigado até breve…. J

Bibliografia:

1. REN. Sustentabilidade. Campos Eletromagnéticos. [Online] 2012. [Citação: 09 de Abril de 2014.] https://www.ren.pt/sustentabilidade/ambiente/campos_electromagneticos/.

2. Distribuição, EDP. Campos Eletromagnéticos. [Online] [Citação: 08 de Abril de 2014.] http://www.edpdistribuicao.pt/pt/ambiente/desempenhoambiental/Pages/camposEletromagneticos.aspx.

3. Dickman, EDMUNDO RODRIGUES JUNIOR - Adriana Gomes. POSSÍVEIS EFEITOS BIOLÓGICOS DAS RADIAÇÕES NÃO - IONIZANTES: RADIAÇÃO ULTRAVIOLETA, E , MICROONDAS. Outubro de 2008.

4. DISTRIBUIÇÃO, EDP. Campos Electromagnéticos de Extremamente Baixa Frequência (EBF). Coimbra e Setubal : s.n., 2009.

5. José Luís Pinto de Sá, Prof. Dr. Engº. 20 PERGUNTAS FREQUENTES SOBRE LINHAS DE ALTA TENSÃO E SAÚDE PÚBLICA. INSTITUTO SUPERIOR TÉCNICO : s.n., Fevereiro de 2008.

















sexta-feira, 4 de abril de 2014

Tensão de Contacto e Tensão de Passo...

O facto de podermos tocar num objeto ligado à terra ou de estarmos nas proximidades deste no momento preciso em que ele escoa uma corrente de defeito, pode, em algumas circunstâncias constituir um risco. A probabilidade de um choque elétrico resultará da ocorrência simultânea de um conjunto de acontecimentos aleatórios: ocorrência de um defeito, a presença no local de seres humanos ou outros animais, e a criação de uma diferença de potencial que dê origem a uma corrente elétrica que circule através do corpo.

O risco de eletrocussão está diretamente ligado à corrente que atravessa o corpo. Os principais parâmetros a considerar, são:
- A amplitude e a duração da aplicação da corrente;
- O trajeto seguido pela corrente, e assim, dos pontos de aplicação da tensão;
- O valor das impedâncias encontradas.

Uma eficaz e segura ligação à terra tem dois objetivos principais:
1) Assegurar que pessoas nas proximidades de instalações ligadas à terra não estejam expostas ao perigo de serem eletrocutadas;

2) Providenciar meios para conduzir correntes elétricas para a terra sob condições normais ou em situações de defeito, sem exceder os limites operativos dos equipamentos ou afetar a continuidade de serviço.

É para atender aos problemas de segurança de pessoas, e também porque o valor de 1 Ohm para a resistência da rede de terra de uma subestação é muito difícil de conseguir em muitas regiões do país, que agora propomos que a validação das terras de Subestações e Postos de Transformação e Seccionamento seja feita pelo controlo dos riscos, ou seja, pelo controlo dos valores suportáveis das seguintes tensões:

- Tensão de contacto: é a diferença de potencial entre uma estrutura metálica ligada à terra e um ponto na superfície do solo a uma distância igual à distância horizontal máxima normal a que esta se pode tocar, aproximadamente 1 metro.

- Tensão de passo: É a tensão entre os pés do ser vivo, ou seja, um passo do mesmo (com os pés separados), com isto ele ficara com os pés em linhas equipotenciais diferentes provocando passagem de corrente pelo seu tronco, num ser vivo bispede isto raramente provoca a morte, pois a parcela de corrente é pequena (linhas equipotenciais próximas), já nos quadrúpedes geralmente é fatal (linhas equipotenciais distantes) maior diferença de potencial, logo maior corrente passando pelo tronco do ser vivo.

Figura nº 1- Esquema explicativo de Tensão de Passo num indivíduo 
Figura nº 2- Diferença de Tensão de passo entre um indivíduo e um ser vivo quadrúpede

PRESCRIÇÕES GERAIS DE SEGURANÇA

Tensões máximas aplicadas ao corpo humano:
Todas as instalações elétricas terão de dispor de uma proteção ou instalação de terra projetada por forma a que em qualquer ponto normalmente acessível do interior ou exterior da mesma onde as pessoas possam permanecer ou circular, estas fiquem submetidas, no máximo, às tensões de contacto e de passo,durante qualquer defeito na instalação elétrica ou na rede a ela ligada.

Prescrições relativamente ao dimensionamento
O dimensionamento das redes de terra far-se-á de forma a que não se produzam aquecimentos que possam deteriorar as suas características e será função da intensidade de corrente que, em caso de ocorrência de um defeito, circula através da rede de terra e do tempo de duração do defeito.
Os elétrodos e restantes elementos metálicos deverão ter uma constituição adequada por forma a poderem resistir à corrosão que os agentes químicos existentes no solo irão exercer sobre eles durante toda a vida útil da instalação.

Deverão também ter-se em conta as possíveis variações das características do solo em épocas secas e depois de estar sujeito a elevadas correntes de defeito.

Figura nº 3 - Dimensionamento de uma rede de terra em edifício


A concepção de um circuito de terra pretende portanto assegurar:
•  A segurança das pessoas;
•  A integridade do equipamento;
•  Proteção contra uma situação de potencial incêndio;
•  Proteção do equipamento eletrónico;
•  A criação de um potencial de referência.

Desta forma a ligação à terra permite, transferir correntes à terra.

Este fenómeno é facilmente perceptível nas figuras 4 e 5 abaixo indicadas.
Um aparelho que não possua ligação à terra e que por qualquer razão sofra uma anomalia elétrica, a “caixa” carrega-se eletricamente e ao tocarmos nesta estamos sujeitos ao choque elétrico, isto deve-se ao fato do nosso corpo na função de condutor fechar o circuito e permitir a descarga do aparelho para a terra, como é demonstrado na figura nº 4. 
Como consequência desta descarga o indivíduo está sujeito a lesões mais ou menos graves.

Figura nº 4- Aparelho sem ligação à terra
Com a ligação feita à terra, a descarga processa-se através dela e não há perigo de choque como é ilustrado em baixo, figura nº 5.


Figura nº 5- Aparelho com ligação à terra

Precauções no caso de tempestades

Dentro de casa:
- Não tome banho durante as tempestades.
-Evite contato com qualquer objeto que possua estrutura metálica, tais como fogões, frigorificos e torneiras.
- Evite ligar aparelhos e motores elétricos, para não queimar os equipamentos.
- Afaste-se das tomadas e evite usar o telefone.
- Desconecte das tomadas os aparelhos eletrónicos, tais como televisão, computador, entre outros.
- Permaneça dentro de casa até a tempestade terminar.
- Desligue os fios de antenas dos aparelhos.

Fora de casa:
-Evite contacto com cercas de arame, grades, tubos metálicos, linhas telefónicas, redes de    energia elétrica e qualquer objeto ou estrutura metálica.

Afaste-se dos seguintes locais:
- Tratores e outras máquinas agrícolas;
- Motocicletas, bicicletas e carroças;
-Campos abertos, pastos, campos de futebol, piscinas, lagos, lagoas, praias, árvores  isoladas, postes, mastros e locais elevados;
- Permaneça dentro do seu veículo, caso ele tenha teto de estrutura metálica.

Reflexão: 
Apesar de todos os esforços, não se consegue evitar que um raio caia sobre determinado local. No entanto, todos os cuidados são para orientá-lo na sua queda, obrigando-o a seguir uma trajetória pré-determinada para a terra, por meio de pára-raios e seus componentes.
Os raios procuram sempre encontrar o menor caminho de resistência elétrica entre a nuvem carregada e a terra para se difundirem. Por isso, eles incidem, geralmente, nos pontos mais altos, tais como: topo de montanhas, torres de transmissão de energia elétrica, árvores altas, torres de igreja, edifícios, ponta de pára-raios, casas, antenas de TV, entre outros. Ao atingir a superfície do solo, a corrente da descarga difunde-se radialmente. Assim, uma pessoa ou animal não precisam necessariamente ser diretamente atingidos por um raio para ocorrer acidente.


As correntes superficiais são elevadas e provocam entre os pés da pessoa ou animal, ocasionalmente uma corrente que pode levar à morte. Os animais, por possuírem uma distância maior entre as patas, estão sujeitos a uma tensão de passo maior e, portanto, são mais susceptíveis a acidentes fatais. A tensão de passo entre as patas dianteiras e traseiras do bovino é maior que a do homem, e com a agravante do seu coração estar no trajeto da corrente de choque. Além disso, o raio cai durante uma tempestade e a chuva deixa o solo molhado. Deste modo, as patas do boi ficam enterradas, produzindo bom contato com a terra, isto é, um bom aterramento. Assim, com a mesma tensão de passo, a corrente de choque é maior nesses animais. Após uma tempestade com trovoada, é comum a morte de animais, principalmente a do gado criado no campo e que se abriga sob árvores. Árvore alta e isolada em uma pastagem é um verdadeiro pára-raios natural. Como a árvore é alta e forma um caminho condutor à terra, há maior probabilidade de ocorrência de raios sobre ela.
As conversa com o nosso orientador de estágio relativamente aos temas abordados nesta publicação, foram a base e orientação para a mesma.
Muito Obrigado até à próxima publicação :) ...

 Bibliografia:

1. Pinto, Ernesto. www.terras.cjb.net. "Projeto, Melhoria e Medições da Terra". [Online] 01 de Abril de 2014. http://paginas.fe.up.pt/~ee94056/quest_terras_TPTC_a.htm.

2. Pantoja Engineering. Ethernet Industrial. [Online] [Citação: 01 de Abril de 2014.] http://www.pantojaindustrial.com/exibir.php?id=216.

3. Distribuição, EDP. DNT – Direcção de Normalização e Tecnologia. 2007.

4. Raio, Especialistas em Proteção Contra o. EVITAR RISCOS POR TENSÃO DE PASSO E CONTACTO. Aplicaciones Tecnologicas . [Online] 01 de Dezembro de 2010. [Citação: 01 de Abril de 2014.] http://pararaios-at3w.pt/empresa/noticias/evitar-riscos-por-tensao-de-passo-e-contacto/s33c64.

5. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Proteção Contra Raios. Agencia de Informação Embrapa. [Online] [Citação: 01 de Abril de 2014.] http://www.agencia.cnptia.embrapa.br/Agencia8/AG01/arvore/AG01_260_217200392410.html.